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Artigo de Revisão

Tratamento Medicamentoso da Insuficiência Cardíaca Crônica

Medicine treatment for chronic cardiac insufficiency

Múcio Tavares de OLIVEIRA JUNIORI, Carlos Henrique DEL CARLOII

Pacientes com insuficiência cardíaca congestiva (ICC) apresentam, além de má qualidade de vida, um prognóstico ruim. Mesmo quando ainda não ocorreu a manifestação dos sintomas, mas a disfunção ventricular é acentuada, a sobrevida média é de 80% em 2 anos1 e de 50% em 5 anos2 . Quando a doença se manifesta, com sintomas de dispnéia, fadiga e edema, a expectativa de vida piora e a sobrevida média é de 30% em 5 anos e naqueles que atingem classe funcional III ou IV, a mortalidade em 1 ano é de 50% em 2 anos de 75%3.

Até há cerca 2 décadas, tratar insuficiência cardíaca significava pouco mais do que controlar sintomas. Desde então, grandes avanços no conhecimento fisiopatológico e na terapia aconteceram. A demonstração de que o bloqueio do sistema renina angiotensina aldosterona (SRAA), através dos inibidores da enzima de conversão de angiotensina I em angiotensina II mudava a história natural, em qualquer fase da doença, abriu a série de mudanças. Finalmente existiam recursos terapêutico que não apenas melhorava sintomas, mas também a mortalidade. A seguir se mostrou que um bloqueio adicional do SRAA com a espironolactona aumentava o benefício e por fim, com o bloqueio do sistema adrenérgico, com o uso de betabloqueadores, um benefício maior na mortalidade foi alcançado.

As demais medidas farmacológicas usuais ou novas para a ICC, como diuréticos e digital não demonstraram impacto no prognóstico, mas atuam adequadamente na qualidade de vida, na estabilização do quadro e na prevenção de piora. As recentemente tentativas de incorporar novas classes de drogas, resultaram em nenhum efeito nos sintomas e no prognóstico ou em efeito negativo no prognóstico e foram abandonadas para a ICC.

Diretrizes brasileiras4 e americanas5 classificam a ICC em 4 estágios evolutivos: A) pacientes de alto risco; B) pacientes com disfunção ventricular assintomática; C) ICC sintomática e D) ICC refratária. Segundo essas diretrizes, o tratamento deve ter início antes mesmo do desenvolvimento das alterações funcionais ou estruturais do coração (estágio A), com o combate aos fatores de risco (hipertensão arterial, diabetes mellitus, coronariopatias, doença valvar). Uma vez manifesta a doença (estágio C) ou na fase final, refratária, (estágio D), a abordagem deve ser ainda mais intensa.

Em todas as fases da doença, o tratamento tem por objetivo (1) prevenir a progressão da disfunção ventricular, (2) prevenir o desenvolvimento de sintomas, (3) controlar os sintomas (estágio C) e (4) prevenir a morte.

Nesta revisão, abordaremos as drogas que são fundamentais em todas as fases do tratamento moderno da ICC e os fatos científicos nos quais se baseiam. Estas drogas são os inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), os bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRA), os antagonistas de aldosterona (AA) e beta-bloqueadores (BB).


SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA-ALDOSTERONA

Na ICC, a ativação do sistema renina-angiotensina- aldosterona (SRAA) resulta em elevação dos níveis de angiotensina II, o que leva a aumento da pós-carga ventricular, hipertrofia, remodelação cardíaca e vascular e secreção de aldosterona.

A inibição do SRAA pode ser realizada de diversas maneiras: 1) inibindo a enzima que converte a angiotensina I em angiotensina II, 2) bloqueando os receptores da angiotensina II ou 3) bloqueando os receptores da aldosterona.

1) Inibindo a enzima converte a angiotensina I em angiotensina II

Os inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) bloqueiam a conversão da angiotensina I em angiotensina II, tendo como conseqüências fisiopatológicas: redução da resistência vascular sistêmica e da pressão arterial, diminuição da pressão diastólica final dos ventrículos esquerdo e direito, redução do trabalho cardíaco e do consumo de oxigênio pelo miocárdio, aumento do débito cardíaco, redução da atividade do sistema nervoso simpático e diminuição da retenção de sódio e água por inibição da liberação de aldosterona estimulada pela angiotensina II6 . Além desses efeitos hemodinâmicos, os IECA melhoram a disfunção diastólica do ventrículo esquerdo ao promoverem a regressão da fibrose miocárdica.

Ensaios clínicos randomizados têm demonstrado que os IECA aumentam a sobrevida, reduzem o número de internações hospitalares, melhoram a classe funcional (da New York Heart Assossiation - NYHA) e a qualidade de vida de pacientes com ICC sintomática. Uma metanálise7 envolvendo cinco grandes ensaios clínicos randomizados com IECA (SAVE, AIRE, TRACE, SOLVD-Treatment, SOLVD-Prevention) demonstrou redução estatisticamente significativa de: risco de morte (20%), readmissão hospitalar por ICC (33%), reinfarto (21%) e eventos associados (28%) (Figura 1).


Figura 1 - Incidência de eventos - Metanálise dos estudos SAVE, AIRE e TRACE (adaptado de Flather MD, et al. Lancet 2000; 355: 1575-81).



As diretrizes atuais para tratamento da ICC4,5 consideram os IECA medicação de primeira linha, juntamente com os betabloqueadores. Os IECA devem ser introduzidos tão cedo quanto possível, sendo indicados para pacientes nas classes funcionais II a IV da NYHA. Recomenda-se a utilização de IECA, que já demonstraram capacidade de reduzir a morbidade e a mortalidade por ICC em ensaios clínicos controlados, pois nestas já ficou claramente estabelecida a dose efetiva capaz de produzir modificações na história natural da doença (captopril, enalapril, lisinopril, perindopril, ramipril, e trandolapril). Devem ser iniciados em doses baixas e aumentadas, até atingir a dose-alvo ou a maior dose tolerável (Quadro 1).




Os IECA são contra-indicados em pacientes com história de edema angioneurótico e estenose bilateral da artéria renal. Deve-se ter cautela no uso dos IECA em pacientes com hipercalemia significativa (potássio sérico >5,0mEq/L), disfunção renal (creatinina >2,5 mg/dL) e em pacientes hipotensos, sintomáticos ou não (PAS <90mmHg)8 .

É esperada uma pequena elevação dos níveis de uréia, creatinina e potássio nos pacientes tratados IECA. Também são aceitáveis aumentos de creatinina (até 50% dos valores basais ou até 3 mg/dL) e potássio (<5,5 mEq/L). Elevações de creatinina e potássio acima desses limites requerem suspensão do IECA e avaliação por especialista8.

2) Bloqueando os receptores da angiotensina II

A angiotensina II é um potente vasoconstritor que produz efeitos estruturais adversos em longo prazo no coração e nos vasos e ativa outros agonistas neurohormonais, incluindo a norepinefrina, aldosterona e endotelina 6. Os agentes bloqueadores angiotensina II (BRA) atuam nos seus receptores, podendo inibir tanto os efeitos produzidos pela via clássica da enzima conversora da angiotensina, como pela via das cininases.

Os bloqueadores da angiotensina II atualmente disponíveis agem somente nos receptores do tipo 1, associados a hipertrofia e remodelação, e aumentam a atividade dos receptores do tipo 2, causando vasodilatação9 . Existem vários BRAs disponíveis para uso clínico: candesartan, irbesartan, losartan, telmisartan, olmesartan e valsartan.

Os efeitos do losartan na ICC foram avaliados nos ensaios clínicos ELITE e ELITE II. O estudo ELITE (Evaluation of Losartan in the Elderly Study)10 envolveu 722 pacientes idosos (idade >65 anos), portadores de ICC. Foi conduzido para determinar se o losartan ofereceria vantagens em termos de segurança e eficácia, em comparação com o captopril e foi observada redução não significativa de 32% na taxa de morte e/ou admissão hospitalar no grupo que losartan. O ELITE II11 buscou verificar se o losartan seria capaz de reduzir a mortalidade por ICC, quando comparado ao captopril. Foram estudados 3.152 pacientes com idade ?60 anos, nas classes funcionais II a IV da NYHA. Não foi observada diferença na mortalidade ou na taxa de admissão hospitalar entre os dois grupos e o losartan foi mais bem tolerado do que o captopril. Este estudo deixou laro que tanto os IECA como os BRA podem ser usados no tratamento da ICC (Figura 2).


Figura 2 - Curva de sobrevida do estudo ELITE II (adaptado de Pitt B, et al. Lancet 2000; 355: 1582).



O efeito do losartan após infarto do miocárdio complicado com disfunção sistólica foi avaliado no estudo OPTIMAAL (Optimal Trial in Myocardial Infarction with the Angiotensin II Antagonist Losartan)12 . O estudo foi desenhado para avaliar uma eventual superioridade do losartan em relação ao captopril na redução da mortalidade por todas as causas. Os resultados do estudo não demonstraram diferenças nos desfechos analisados, sugerindo que o losartan não é superior, mas sim igualmente eficaz aos IECA.

Os resultados do valsartan na ICC foram avaliados em dois grandes estudos, o Val-HeFT (Valsartan Heart Failure Trial) e o VALIANT (Valsartan in Acute Myocardial Infarction Trial). O Val-HeFT13 incluiu 5.010 pacientes com ICC nas classes funcionais II a IV da NYHA, tratados com IECA, betabloqueadores, diuréticos e digoxina, randomizados em dois grupos para receber valsartan ou placebo. O uso do valsartan não teve impacto sobre a mortalidade, porém mais pacientes do grupo valsartan apresentaram melhora da classe funcional da NYHA e dos sintomas de ICC. Neste estudo, o subgrupo de pacientes que tomavam betabloqueadores apresentaram aumento de mortalidade (p=0,009).

O estudo VALIANT14 avaliou 14.808 pacientes com infarto agudo do miocárdio complicado por disfunção ventricular e/ou ICC. Os pacientes foram randomizados em três grupos para receber captopril, valsartan ou captopril e valsartan. O desfecho primário foi morte por qualquer causa. O estudo demonstrou que o valsartan é tão eficaz quanto o captopril em pacientes com alto risco para eventos cardiovasculares após infarto do miocárdio. A associação de captopril e valsartan aumentou a taxa de eventos adversos, sem que houvesse melhora da sobrevida.

O estudo CHARM (The Candesartan in Heart failure Assessment Reduction in Mortality and morbidity) avaliou 7.589 pacientes que receberam candesartan ou placebo. No grupo que recebeu candesartan, houve redução significativa da mortalidade cardiovascular e do número de internações hospitalares por ICC15 .

Com base nesses estudos, os IECA continuam como a primeira escolha para promover a inibição do sistema renina-angiotensina na ICC crônica. Os BRAs são recomendados (Quadro 2) como alternativa
nos pacientes que não toleram os IECA devido a tosse ou angioedema, mas podem ser usados também como primeira escolha. A associação do BRA como terapêutica associada ao IECA ainda é questão a ser definida. Entretanto, com base nos achados do estudo Val-HeFT, os BRAs não devem ser administrados a pacientes que estejam recebendo IECA e betabloqueadores. Tampouco se recomenda associar os três inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (IECA, BRA e antagonistas da aldosterona), pois existem poucas informações disponíveis sobre os riscos de disfunção renal e hipercalemia decorrentes dessa associação. Os BRAs apresentam efeitos colaterais semelhantes aos dos IECA, que incluem hipotensão, piora da função renal e hipercalemia8.




3) Bloqueando os receptores da aldosterona.

Apesar da inibição do SRAA pelos IECA e BRA, pacientes portadores de ICC podem apresentar níveis elevados de aldosterona, fenômeno conhecido como "escape da aldosterona", cujos mecanismos podem incluir: redução no clearence da aldosterona, estimulação da síntese de aldosterona por outras vias (hormônio corticotrópico e endotelina) e secreção de aldosterona dependente do potássio9.

A aldosterona pode causar vários efeitos deletérios na ICC: aumento na fibrose miocárdica, perivascular e perimiocítica por estimulação dos fibroblastos, causando rigidez e disfunção ventricular; perda de potássio e magnésio; disfunção de barorreceptores e aumento da liberação de norepinefrina, que, por sua vez, pode aumentar o risco de arritmias cardíacas e morte súbita9.

Dois ensaios clínicos randomizados demonstraram os efeitos clínicos benéficos do antagonismo da aldosterona. O estudo RALES (Randomized Aldactone Evaluation Study)16 , foi o primeiro a demonstrar os benefícios do bloqueio da aldosterona na ICC com relação à redução da mortalidade e da hospitalização. Envolveu 1.663 pacientes com ICC avançada e fração de ejeção do ventrículo esquerdo <35%, que faziam uso de IECA, diurético de alça e, em muitos casos, digoxina. Os pacientes foram randomizados em dois grupos para receber 25 mg de espironolactona ou placebo. O estudo foi interrompido após 24 meses de seguimento, uma vez que a análise interina revelou redução de 30% (p<0,001) no risco de morte e de 35% (p<0,001) na incidência de hospitalizações por ICC. Esses benefícios foram relativamente uniformes nos subgrupos analisados, incluindo idade, sexo, etiologia da ICC, uso de IECA, betabloqueadores, diuréticos ou digoxina. A incidência de ginecomastia e dor na mama em homens que receberam espironolactona foi de 10%, enquanto que, no grupo que recebeu placebo, foi de 1% (p <0,001). A incidência de hipercalemia séria foi mínima em ambos os grupos (2% no grupo espironolactona e 1% no grupo placebo).

No estudo EPHESUS17 (Eplerenone Post-Acute Myocardial Infarction Heart Failure Efficacy and Survival Study), foram selecionados 6.632 pacientes, 3 a 14 dias após infarto agudo do miocárdio, com fração de ejeção do ventrículo esquerdo <40% e ICC, randomizados em dois grupos para receber eplerenone (bloqueador seletivo da aldosterona) ou placebo, além do tratamento médico padrão, com seguimento de 16 meses. Os pacientes que receberam eplerenone apresentaram redução de 15% (p=0,008) na mortalidade total, 17% (p=0,005) no risco de morte por causa cardiovascular e 13% (p=0,002) no risco de eventos combinados de morte por causa cardiovascular ou hospitalização por eventos cardiovasculares. Os pacientes do grupo eplerenone apresentaram maior incidência de hipercalemia séria em relação ao grupo placebo: 5,5% e 3,9% (p=0,002), respectivamente. Na análise de subgrupos, os benefícios foram mais evidentes no grupo que fez uso de IECA (ou BRA) e betabloqueadores e inexistentes naqueles pacientes que não utilizaram essas medicações.

No Brasil, o único antagonista da aldosterona disponível é a espironolactona, indicada para pacientes com ICC sintomática, classes funcionais III e IV, em associação com diuréticos, digitálicos, IECA e betabloqueadores4. Não se recomenda associar os três bloqueadores do SRAA, por falta de dados com relação à segurança dessa associação 5. A espironolactona deve ser iniciada na dose de 12,5 a 25 mg/dia. Recomenda-se que a monitoração do potássio sérico e da função renal seja realizada após três dias e depois de uma semana. Posteriormente, durante os primeiros três meses, a monitoração pode ser realizada mensalmente, dependendo do estado clínico do paciente, e depois, a cada três meses.

O risco de hipercalemia aumenta progressivamente com níveis de creatinina acima de 1,6 mg/dL. Para evitá-lo, recomenda-se administrar dose reduzida de espironolactona (12,5 mg/dia) aos pacientes com clearence de creatinina <50 ml/min. Naqueles com clearence de creatinina <30ml/min, o uso de antagonistas da aldosterona deve ser evitado. O paciente deve ser orientado a evitar o uso de antiinflamatórios nãohormonais e inibidores da Cox-2, pelo risco de piora da função renal e da hipercalemia. Devem ser orientados ainda a interromper o uso da espironolactona durante episódios de diarréia aguda e na presença de outras causas de desidratação5.


VASODILATADORES DIRETOS: HIDRALAZINA E DINITRATO DE ISOSSORBIDA

A associação de hidralazina e dinitrato de isossorbida apresenta vários efeitos benéficos na ICC: diminuição regurgitação mitral, da pré e pós-carga, aumento do débito cardíaco e discreto aumento da fração de ejeção. Os benefícios clínicos dessa associação foram demonstrados no estudo V-HeFT I18 (Veterans Administration Cooperative Study), ensaio clínico que reuniu 642 homens, nas classes funcionais III e IV da NYHA, tratados com digoxina e diuréticos. Os pacientes foram randomizados em três grupos para receber placebo, prazosin (20 mg/dia) ou a combinação de hidralazina (300 mg/dia) e dinitrato de isossorbida (160 mg/dia). O desfecho analisado foi a mortalidade em três anos.

Em comparação com placebo, os pacientes que receberam hidralazina e dinitrato de isossorbida apresentaram redução da mortalidade de 38% em um ano, 25% em dois e 23% em três anos. A mortalidade cumulativa foi significativamente reduzida em dois anos (p<0,028), mas apresentou significância estatística limite ao final do seguimento (p~0,05). A fração de ejeção do ventrículo esquerdo aumentou significativamente (p<0,001) em oito semanas e após um ano no grupo tratado com hidralazina e isossorbida em relação aos grupos placebo e prazosin.

No estudo V-HeFT II19 , a associação de hidralazina e dinitrato de isossorbida foi comparada ao enalapril (20 mg/dia) em 804 pacientes do sexo masculino, com classes funcionais II e III da NYHA. A mortalidade em dois anos foi significativamente menor no grupo enalapril do que no grupo hidralazina-dinitrato de isossorbida: 18% e 25%, (p=0,016), respectivamente. Entretanto, os pacientes do grupo que combinava hidralazina e dinitrato de isossorbida apresentaram efeitos mais favoráveis com relação a fração de ejeção do ventrículo esquerdo e capacidade de esforço.

Na análise de subgrupos do V-HeFT, a associação de hidralazina e dinitrato de isossorbida produziu maiores benefícios em pacientes da raça negra. Assim sendo, essa associação foi novamente testada no estudo A-HeFT20 (African-American Heart Failure Trial). Foram selecionados 1.050 pacientes da raça negra em classes funcionais III e IV da NYHA, randomizados em dois grupos para receber dose fixa da combinação hidralazina e dinitratode isossorbida ou placebo, além da terapia padrão para ICC. Os desfechos analisados incluíram um escore composto por qualidade de vida, morte e hospitalização por ICC. O estudo foi encerrado precocemente em razão da maior taxa de mortalidade observada no grupo placebo em relação ao grupo em que se associou hidralazina e dinitrato de isossorbida: 10,2% e 6,2% (p=0.002), respectivamente. O escore composto também foi significativamente melhor no grupo que recebeu hidralazina e dinitrato de isossorbida.

Recomenda-se que a associação de hidralazina e dinitrato de isossorbida não seja utilizada como medicação de primeira linha no tratamento da ICC em pacientes que não tenham feito uso prévio de IECA ou em substituição a esses, em pacientes que estejam tolerando bem a medicação5. A combinação de hidralazina e dinitrato de isossorbida deve ser considerada naqueles que não podem fazer uso de IECA devido a hipotensão ou insuficiência renal5.

A dose habitual da hidralazina é de 25 mg, três a quatro vezes ao dia. Como efeitos colaterais podem ocorrer cefaléia vascular, rubor, náuseas e vômitos, que desaparecem com a continuação do tratamento. Pode ocorrer uma síndrome semelhante ao lúpus, que desaparece com a supressão da droga.

Na ICC, os nitratos são administrados de forma intermitente para prevenir o desenvolvimento da taquifilaxia. Recomenda-se que o dinitrato de isossorbida seja administrado na dose de 10 mg, às 7, 12, 17 e 22:00 horas, enquanto que o mononitrato de isossorbida deve ser administrado na dose de 20 mg, às 8 e 17:00 horas4.


BETA BLOQUEADORES

A prescrição de beta-bloqueadores se mostrou crucial no tratamento da ICC: eles induzem redução no diâmentro ventricular, melhora a função ventricular, melhorar a qualidade de vida, reduz internações, previne piora da classe funcional e melhora o prognóstico.

O benefício desta classe de drogas na prevenção de morte no pós-infarto já havia sido demonstrada desde a década de 70, porém continuava a ser contraindicada nos pacientes com ICC pelo seu efeito inotrópico negativo. A mudança neste conceito teve início principalmente com a descoberta de dois fenômenos. O primeiro, de que níveis de noradrenalina estão elevados desde as fases iniciais da ICC e são progressivamente maiores quanto pior a doença21-23 e o segundo, de que a disponibilidade e concentração do dos receptores beta da parede celular está muito diminuído na ICC, e mais diminuídos quanto mais avançada a doença e maiores os níveis de noradrenalina24-25.

Este segundo fenômeno ficou conhecido como "down regulation" dos receptores beta-1. A demonstração que o uso de beta-bloqueadores revertiam o "down regulation" abriu caminho para que novos estudos se desenvolvessem e se pode demonstrar que estas drogas são muito benéficas nos pacientes com ICC, qualquer que seja seu estágio. Entre os primeiros estudos clínicos, destaca-se o US Carvedilol, que comparou a administração de placebo ou carvedilol. Os pacientes randomizados para carvedilol tiveram uma mortalidade 65% menor do que os pacientes do grupo placebo26 .

Embora este número possa ser exagerado e o estudo tenha sofrido críticas metodológicas, estudos subseqüentes com metoprolol (Estudo MERIT)27 e bisoprolol (Estudo CIBIS II28 , continuaram mostrando uma melhora da sobrevida, em níveis mais realistas de 34% em 18 e 24 meses respectivamente. Nestes 3 estudos, a população era de indivíduos portadores de disfunção ventricular acentuada, clinicamente estáveis, em CF II ou III. O efeito dos beta bloqueadores nos pacientes mais graves foi testado no estudo COPERNICUS, que incluiu pacientes com classe funcional IV e demonstrou melhora na sobrevida de 35% ao final de 28 meses29 . Também na fase inicial da ICC o efeito foi testado. Nos estudos CAPRICORN30 em um subgrupo do estudo MERIT31, ambos com cerca de 2000 pacientes com disfunção ventricular pós-infarto, mas sem ICC manifesta, ocorreu benefício na sobrevida, de 23% em 2,5 anos no CAPRICORN (Figura 3) e de 40% em 18 meses no MERIT.


Figura 3 - Curva de sobrevida do estudo CAPRICORN (Adaptado de Lancet 2001; 357: 1385).



Outras drogas desta classe não foi testada ou as que foram, não demonstraram benefício. O bucindolol (estudo BEST) demonstrou uma diferença não-significante entre a sobrevida e tampouco hospitalização entre os pacientes do grupo internvenção e placebo32 .

Além dos benefícios na mortalidade, outras publicações tem mostrado melhora na capacidade de exercício, diminuição da progressão da ICC, redução de piora da ICC e de necessidade de internação nos pacientes33, melhora na fração de ejeção e queda no diâmetro do VE34 .

Portanto o efeito benéfico dos beta bloqueadores carvedilol, bisoprolol e metoprolol ocorre nas fases B, C e D da ICC, mas apenas estas drogas demonstraram benefícios e apenas elas tem indicação atual no tratamento da ICC.

A recente controvérsia desencadeada pelo estudo COMET, que comparou a eficácia do carvedilol e metoprolol na redução da mortalidade e piora da ICC não chegou ao fim. Este estudo demonstrou que o carvedilol apresentou 17% maior redução na mortalidade do que o metoprolol e diminuição pouco significativa na hospitalização35 (Figura 4). Como a apresentação do metoprolol neste estudo foi o tartarato de metoprolol, diferente daquela usada no estudo MERIT (um metoprolol de ação prolongada), diferenças intrínsecas da preparação da droga podem explicar a diferença, mas também é verdade que os pacientes do grupo metoprolol estavam efetivamente beta bloqueados e, portanto, a comparação pode ser válida.


Figura 4 - Mortalidade nos grupos Carvedilol e Metoprolol do estudo COMET (Adaptado de Poole-Wilson et al Lancet 2003; 362: 7-13).



Independente da droga escolhida, todos os pacientes portadores de disfunção ventricular sintomática ou não devem receber um beta-bloqueadore. As doses recomendadas dos beta-bloqueadores são:

- Carvedilol, iniciar com 3,125 mg 2 vezes ao dia e aumentar progressivamente até a dose de 25 mg 2 vezes ao dia.

- Metoprolol: iniciar com 25 mg 2 vezes ao dia e aumentar progressivamente até a dose de 100 mg 2 vezes ao dia.

- Bisoprolol: iniciar com 2,5 mg 1 vez ao dia e aumentar progressivamente até a dose de 10 mg 1 vez ao dia.


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I. Médico, Chefe do Hospital Dia do Instituto do Coração (InCor) - SP.
II. Médico, Assistente do Hospital Dia do InCor - SP.

Endereço para correspondência:
Rua Itapeva, 202 - Cj. 85/89
São Paulo - SP - Brasil - CEP: 01332-000
E-mail: mucio@incor.usp.br

Trabalho recebido em 02/2006 e publicado em 03/2006.

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