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Brazilian Pacemaker Registry: pacing mode choice in 1999

Registro Brasileiro de Marcapassos: Escolha do Modo de Estimulaçao no ano de 1999

Registro Brasileiro de Marcapassos: Escolha do Modo de Estimulaçao no ano de 1999

Roberto COSTAI, Luiz Antonio Castilho TENOII, Antonio Amauri GROPPOIII, Vicente AVILA NETOIII, Paulo Roberto Slud BROFMANIV, Roberto BELTRAMEV, Carla Pinta MARQUESV

ABSTRACT

The Brazilian Pacemaker Registry (RBM) is a nationwide database to collect data about all permanent pacemaker procedures performed in Brazil. It is a task force of the Health Ministry, the Pacemaker Companies and the Medical Society. This is a survey reporting the 6th complete year of operation. From January 1 to December 31, 1999, 11,048 surgical procedures for permanent cardiac pacing were informed: 8,141 initial implants (73.7%) and 2,907 re-operations (26.3%). Single chamber pacemakers were implanted in 6,779 patients (61.4%) and dual chamber in 4,258 (38.6%). Only 99 atrial single chamber pacemakers were implanted (0.7%). It was possible to detect some factors that influenced the pacing mode choice for ventricular (VVI) or dual chamber (DC) pacing: 1) the brazilian region where the procedure was performed; 2) the age of the patient; 3) the functional class for Heart Failure (NYHA) and the pre-operative ECG finding. Regional influence: ventricular pacemakers were more prevalent in all regions except for the mid-west where the ratio DC / VVI was 1.5:1. In all other regions the VVI / DC ratio ranged from 1.3 to 2.0:1. Age: Atrioventricular pacing was prefered for patients from 21 to 60 y.o. (DC / VV ratio range = 1.7:1 and 1.3:1, respectively for ages 21 to 40 and 41 to 60 y.o.). In all other age classes, the ventricular pacing mode was prevalent. Heart Failure: ventricular pacemakers were more implanted in classes II, III and IV (VVI / DC ratio = 1.2 : 1 for class II, 1.5 : 1 for class III and 1.9 : 1 in class IV). In class I patients, dual chamber pacemakers were more implanted (DC / VVI ratio = 1.4 : 1). Pre-operative ECG finding: Only sick sinus syndrome patients received more dual chamber than ventricular pacemakers (DC / VVI ratio = 2.1 :1). In all other types of conduction disturbances, ventricular pacing was implanted in higher number than dual chamber, in 2nd degree AV block the VVI / DC ratio was 1.2 :1, in 3 degree AB block the ratio was 1.8 : 1 and in atrial flutter / fibrillation 10 : 1. Other factors: Gender, pre-operative symptoms and etiology of conduction disturbance were not related to pacing mode choice.

Keywords: pacemaker, data collection, database management system, Brazil, arrythmia

RESUMO

O Registro Brasileiro de Marcapassos (RBM) é uma base de dados nacional que visa a coletar e divulgar informaçoes concernentes aos procedimentos relacionados à estimulaçao cardíaca artificial no Brasil. Este trabalho apresenta os resultados do sexto ano de operaçao do RBM, que vai de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 1999, e teve como objetivo principal comparar os dados clínicos dos pacientes submetidos a implantes de marcapasso ventricular com os daqueles que receberam marcapasso atrioventricular. Neste período foram reportados 11.048 procedimentos, perfazendo 8.141 implantes iniciais (73,7%) e 2.907 reoperaçoes (26,3%). Foram implantados 6.779 marcapassos unicamerais (61.4%) e 4.258 bicamerais (38,6%). Dos implantes de câmara única, apenas 99 foram atriais (0,9%). A relaçao média nacional entre implantes ventriculares e atrioventriculares foi de 1,6 : 1. Pela análise dos dados apresentados para os primeiros implantes de marcapasso, foi possível verificar fatores que influenciaram a escolha do modo de estimulaçao, como: 1) a regiao onde o hospital está instalado; 2) a idade do paciente; 3) a classe funcional e 4) o distúrbio de conduçao do paciente. Diferenças Regionais: a regiao centro-oeste diferiu das demais por apresentar maior número de implantes atrioventriculares que ventriculares (relaçao AV / VVI = 1,5). Nas demais regioes foram implantados mais marcapassos ventriculares que de dupla-câmara, com relaçoes AV / VVI variando de 0,78 na regiao sudeste a 0,51 na regiao sul. Idade: na faixa etária de 21 a 60 anos, houve mais implantes bicamerais (relaçao AV / VVI = 1,7 dos 21 aos 40 anos e 1,25 dos 41 aos 60). Nas demais faixas de idade o número de implantes ventriculares foi maior, com a relaçao VVI / AV variando de 1,3 : 1 nas duas primeiras décadas da vida a 3,2 : 1 na faixa etária maior que 81 anos. Classe Funcional: apenas nos pacientes de classe funcional I o número de marcapassos bicamerais excedeu o número de ventriculares (relaçao AV / VVI = 1,4). Nos pacientes com sintomas de insuficiência cardíaca prévia, o número de implantes ventriculares foi maior, com relaçao VVI / AV de 1,2 : 1 classe II; de 1,5 : 1 na classe III e de 1,9 : 1 na classe IV. Distúrbio do Sistema Excito-Condutor: pacientes portadores de doença do nó sinusal receberam aproximadamente duas vezes mais marcapassos fisiológicos que ventriculares (relaçao AV/VVI = 2,1 : 1). Nos portadores de bloqueios do 2º grau a relaçao VVI/AV foi de 1,2:1, nos portadores de bloqueios totais, foi de 1,8:1 e nos casos de flutter ou fibrilaçao atrial, de 10 : 1). Outros Fatores Analisados: Sintomas pré-operatórios, etiologia do distúrbio da conduçao e sexo do paciente nao estiveram relacionados a diferenças no modo de estimulaçao escolhido.

Palavras-chave: estimulaçao cardíaca artificial, coleta de dados, sistemas de gerenciamento de base de dados, Brasil, arritmia

INTRODUÇAO

Os critérios comumente observados para a escolha do modo de estimulaçao cardíaca artificial baseiam-se em três pontos fundamentais:

a) no conhecimento da fisiologia cardíaca, a partir do qual objetiva-se, sempre que possível, a manutençao ou a reconstituiçao do sincronismo atrioventricular;

b) na relaçao custo / benefício, que implicaria compensaçao do gasto, inicialmente mais elevado, dos sistemas atrioventriculares, pela dimuiçao do número de internaçoes e do uso de medicamentos no longo prazo, e

c) nas evidências obtidas na literatura de que o implante de um sistema mais "fisiológico" proporciona menor mortalidade, melhor qualidade de vida e menor índice de complicaçoes que o uso de um marcapasso ventricular.

Tendo como base o melhor desempenho hemodinâmico dos pacientes portadores de marcapassos que preservam a seqüência atrioventricular, os diversos consensos sobre a estimulaçao cardíaca artificial têm recomendado a utilizaçao de marcapassos atriais ou atrioventriculares sempre que as câmaras atriais apresentem estabilidade elétrica1,2.

Vários autores têm trabalhado para projetar a diferença do custo dos sistemas uni e bicamerais a curto e longo prazo3,4. Sutton (1996) concluiu que, após três anos de seguimento, o custo do tratamento de pacientes portadores de marcapassos bicamerais é menor que o de sistemas ventriculares, tanto na doença do nó sinusal quanto nos bloqueios da conduçao atrioventricular4.

Entretanto, há escassas evidências de que os sistemas baseados na contraçao atrial permitem maior sobrevida e menor número de complicaçoes que os marcapassos ventriculares. A maioria dos trabalhos encontrados na literatura sao calcados em análises retrospectivas, sujeitas a críticas. Os poucos trabalhos prospectivos têm analisado apenas a doença do nó sinusal5-10.

O objetivo do presente relato é apresentar os dados obtidos pelo RBM no ano de 1999, a partir do modo de estimulaçao escolhido.


MÉTODO

Coleta e Processamento das Informaçoes


O Registro Brasileiro de Marcapassos é adaptado à realidade brasileira e é compatível com o "European Pacemaker Registration Card". Um único documento, em quatro vias, substitui a "ficha de implante" dos diversos fornecedores, padronizando-a em todo o território nacional; uma via fica arquivada no prontuário do paciente, a segunda fica com a empresa fornecedora do marcapasso, uma terceira vai para o órgao pagador, que é o Sistema Unico de Saúde (SUS), ou para as empresas seguradoras e a quarta é remetida ao RBM, responsável pelo processamento dos dados.

Uma portaria do Ministério da Saúde (Vigilância Sanitária) regulamenta que todo o gerador de pulsos comercializado do Brasil deve conter tal formulário, do qual constam as seguintes informaçoes: 1) dados pessoais do paciente; 2) dados clínicos; 3) dados cirúrgicos; 4) dados sobre o sistema de estimulaçao implantado e/ou removido, além de 5) fechamento do arquivo. Os dados repetitivos, tais como o Cadastro de Médicos, de Hospitais, de Empresas Seguradoras e de Produtos (geradores e eletrodos) compoem os arquivos de suporte para o cadastramento e contêm informaçoes completas sobre os diferentes setores do RBM.

O Registro Brasileiro de Marcapassos utiliza um software gerenciador do banco de dados já apresentado anteriormente, recentemente modificado e redesenhado em Visual Basic 5.0, o que permite que o trabalho seja desenvolvido integralmente em ambiente Windows. É dedicado à manipulaçao de dados médicos (textuais), organizados na forma de tabelas de múltipla escolha. Tem como característica principal a facilidade de inserçao e a versatilidade para o levantamento de dados, com índices que sao criados no momento da pesquisa. O sistema permite a pesquisa de qualquer dado, a partir do grupo total ou de qualquer outro índice (subgrupo) já criado, atendendo às diversas necessidades de levantamento dos dados. Possui um módulo editor de relatórios que é utilizado para relatórios padronizados como os que sao enviados para o Ministério da Saúde, para os hospitais ou para os médicos participantes do sistema.

Os formulários sao recebidos pelo RBM por via postal. As planilhas sao examinadas, classificadas e levadas à digitaçao. Aquelas que apresentam pequenos erros ou falhas de preenchimento sao separadas e é feito um contato por telefone ou por correio para que sejam corrigidas. O tempo médio de recebimento dos formulários é de 30 a 60 dias após a realizaçao do procedimento.

O RBM conta com uma funcionária responsável pela revisao, classificaçao e digitaçao dos formulários. Os recursos provêm da taxa cobrada pelo RBM por unidade de formulário fornecida aos distribuidores, o que tem garantido a operacionalidade do sistema.

Na presente publicaçao foram analisadas apenas os números dos campos assinalados, tendo sido excluídos os campos deixados em branco.

Análise dos Resultados

Após o cadastramento das informaçoes, os dados referentes ao ano de 1999 foram separados e analisados: 1) quanto ao sexo e à idade dos pacientes; 2) quanto às características clínicas e 3) quanto ao tipo de marcapasso implantado. Os dados referentes aos médicos e hospitais que realizaram o implante também foram analisados.

Os dados pessoais e clínicos foram agrupados segundo o tipo de marcapasso utilizado (ventricular ou atrioventricular) e apresentados em tabelas e gráficos. Os dados referentes aos implantes atriais puros foram retirados dessa análise, devido ao seu pequeno número (53 pacientes, representando 0,7% das operaçoes).

Os gráficos apresentam histogramas de freqüência dos números absolutos para todos os parâmetros analisados. No caso específico das variáveis clínicas, os gráficos de barras horizontais exibem também os valores percentuais.

A especializaçao dos médicos e hospitais que realizaram os procedimentos é analisada pelo agrupamento dos profissionais e instituiçoes em quatro categorias: a) os que realizam menos de 10 operaçoes de marcapasso por ano; b) entre 11 e 50; c) de 51 a 100; e d) acima de 100 procedimentos ao ano. Estes dados sao apresentados em histogramas de freqüência.


RESULTADOS

Dados Gerais


Segundo as informaçoes registradas nos formulários enviados por 216 hospitais e preenchidos por 392 médicos diferentes, no período de 01/01/99 a 31/12/99 foram realizados 11.048 procedimentos cirúrgicos relacionados à estimulaçao cardíaca artificial. Desses, 8.141 (73,7%) foram implantes iniciais e 2.907 (26,3%), reoperaçoes.

A distribuiçao dos pacientes por regiao brasileira, levando em consideraçao a localizaçao do hospital, mostrou que na regiao centro-oeste foram realizadas 814 (7,4%) operaçoes; na regiao nordeste, 1.323 (11,2%); na norte, 32 (0,3%); na sudeste, 6.511 (58,9%) e na sul, 2.331 (21,1%).

Verificou-se que 88 hospitais (40,7%) realizaram menos de 10 operaçoes; 64 hospitais (29,6%) realizaram de 11 a 50 procedimentos; 31 (14,4%) realizaram entre 51 e 100 operaçoes e apenas 33 (15,3%) hospitais realizaram mais de 100 procedimentos no ano de 1999 (Figura 1).


Figura 1 - Distribuiçao dos hospitais que realizaram os implantes, agrupados por número de procedimentos realizados no ano de 1999.



Da mesma forma, observa-se que 209 médicos (53,3%) realizaram menos de 10 operaçoes; 112 profissionais (28,6%) realizaram de 11 a 50 procedimentos; 46 (11,7%) realizaram entre 51 e 100 operaçoes e apenas 25 (6.40%) especialistas realizaram mais de 100 procedimentos em 1999 (Figura 2).


Figura 2 - Distribuiçao dos médicos que realizaram os implantes, agrupados por número de procedimentos realizados no ano de 1999.



Implantes Iniciais

Analisando os dados referentes aos implantes iniciais de marcapasso, verificou-se que sistemas de câmara única foram implantados em 4.713 (57,9%) pacientes e de dupla-câmara em 3.428(42,1%). Dos marcapassos unicamerais, apenas 53 (0,7%) eram atriais (Figura 3). A Figura 4 mostra a distribuiçao dos implantes iniciais nas diferentes regioes brasileiras.


Figura 3 - Tipo de marcapasso utilizado nos pacientes submetidos a primeiro implante.


Figura 4 - Modos de estimulaçao utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a regiao brasileira onde o procedimento foi realizado.



O sexo masculino foi referido em 2.344 (50,4%) pacientes submetidos a implantes ventriculares e em 1.785 (52,2%) dos atrioventriculares. O sexo feminino foi mencionado em 2.306 (49,6%) pacientes submetidas a implantes ventriculares e em 1.637 (47,8%), nos atrioventriculares (Figura 5).


Figura 5 - Modos de estimulaçao utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo o sexo dos pacientes.



A análise da idade dos pacientes mostrou que, dos pacientes submetidos a implante ventricular, 61 (1,5%) tinham de 1 a 20 anos de idade; 139 (3,4%), de 21 a 40; 638 (15,4%), de 41 a 60; 2.331 (56,2%), de 61 a 80; e que 976 (23,5%), tinham acima de 81 anos. No grupo de pacientes submetidos a implantes de dupla-câmara, 46 (1,5%) situavam-se na faixa etária de 1 a 20 anos; 238 (7,8%), de 21 a 40; 799 (26,0%), de 41 a 60; 1680 (54,7%), de 61 a 80; e 307 (10,0%), mais de 80 anos (Figura 6).


Figura 6 - Modos de estimulaçao utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a faixa etária dos pacientes.



Nos pacientes submetidos a implante ventricular, a indicaçao clínica para o implante de marcapasso foi justificada por síncopes, pré-síncopes ou tonturas em 3.608 (77,4%), pelo achado de bradicardia em 265 (5,7%), por insuficiência cardíaca congestiva (ICC) em 288 (6,2%), por taquicardia em 84 (1,8%), sendo relatados outros sintomas e sinais em 58 (1,8%) enfermos. Nos implantes atrioventriculares, a referência de sintomas de baixo fluxo cerebral foi feita em 2.350 casos (68,6%), de bradicardia em 234 (6,8%), de insuficiência cardíaca congestiva em 261 (7,6%), de taquicardia em 78 (2,3%) e outras causas em 43 (1,3%) (Figura 7).


Figura 7 - Modos de estimulaçao utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a indicaçao clínica para o implante de marcapasso.



A classificaçao funcional para ICC (NYHA) mostrou que 259 (5,6%) pacientes submetidos a implante ventricular e 368 (10,7%) dos bicamerais eram assintomáticos e que 545 (11,7%) submetidos a implante ventricular e 438 (12,8%) dos atrioventriculares apresentavam sintomas aos grandes esforços. Na classe funcional III estavam 1999 (42,9%) pacientes submetidos a implante ventricular e 1.342 (39,1%) submetidos a implantes de dupla-câmara. Sintomas em repouso foram reportados em 1.459 (31,3%) dos implantes ventriculares e em 762 (22,2%) dos atrioventriculares (Figuras 8a e 8b).


Figuras 8a e 8b - Modos de estimulaçao utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a classificaçao funcional dos pacientes para insuficiência cardíaca congestiva.



Para os implantes ventriculares, os distúrbios do ritmo cardíaco que justificaram o implante de marcapasso foram o bloqueio atrioventricular do segundo grau em 528 pacientes (11,3%); o bloqueio atrioventricular total em 2.590 (55,6%), os bloqueios fasciculares em 55 (1,2%); as várias formas da doença do nó sinusal em 370 (7,9%), o flutter ou fibrilaçao atrial com baixa resposta ventricular em 692 (14,8%) e outros achados em 85 (1,8%). No grupo dos pacientes submetidos a implantes bicamerais os distúrbios do ritmo cardíaco relatados foram o bloqueio atrioventricular do segundo grau em 452 pacientes (11,3%); o bloqueio atrioventricular total em 1.449 (42,3%), os bloqueios fasciculares em 99 (2,9%); as várias formas da doença do nó sinusal em 761 (22,2%), o flutter ou fibrilaçao atrial com baixa resposta ventricular em 71 (2,1%) e outros achados em 134 (3,9%). (Figuras 9a e 9b).


Figuras 9 a e 9b - Modos de estimulaçao utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo o achado eletrocardiográfico dos pacientes.



A etiologia atribuída ao distúrbio da conduçao dos pacientes submetidos a implante ventricular foi a congênita em 47 pacientes (1,0%), desconhecida em 1.271 (27,3%), doença de Chagas em 938 (20,1%), fibrose do sistema de conduçao em 1.227 (26,3%), intervençoes médicas em 92 (2,0%) e outras causas em 261 (5,6%). Dos pacientes submetidos a implantes atrioventriculares, 38 (1,1%) foram referidos como congênitos, em 779 (22,7%) a etiologia foi dada como desconhecida, 811 (23,7%) eram chagásicos, em 696 (20,3%) foi relatada fibrose do sistema de conduçao, em 72 (2,1%) foram citadas intervençoes médicas e em 166 (4,8%), outras causas foram relatadas (Figura 10).


Figura 10 - Modos de estimulaçao utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a etiologia do distúrbio da conduçao dos pacientes.



DISCUSSAO

No presente estudo foi possível verificar que no ano de 1999, persistiu no Brasil a tendência de diminuiçao da utilizaçao de marcapassos ventriculares verificada nos anos anteriores, sendo que a relaçao entre implantes ventriculares e atrioventriculares (VVI/AV) foi de 1,3:1 para os implantes iniciais. Quando a opçao recaiu nos modos fisiológicos de estimulaçao, a grande maioria dos pacientes recebeu marcapassos atrioventriculares, sendo que apenas 0,7% dos implantes foram atriais puros.

Dentre os fatores que influenciaram a escolha do modo de estimulaçao, pôde-se identificar nos dados enviados ao RBM: 1) a regiao onde o hospital está instalado; 2) a idade; 3) a classe funcional e 4) o distúrbio da conduçao do paciente.

Diferenças Regionais

Quando se analisa a regiao do Brasil onde o implante foi realizado, observa-se que à exceçao da regiao centro-oeste, em todas as demais regioes implantaram-se mais marcapassos ventriculares. Na regiao sudeste a relaçao VVI / AV foi de 1,3:1, na nordeste de 1,4:1, na sul de 2,0:1 e na regiao norte foi 1,9:1. Na regiao centro-oeste, o número de implantes atrioventriculares foi maior que o número de ventriculares, com uma relaçao de 1,5 dupla-câmara para cada ventricular.

Idade

A idade do paciente influenciou fortemente a escolha do modo de estimulaçao. Nas crianças e adolescentes houve uma tendência de utilizaçao de marcapassos ventriculares em maior número que os atrioventriculares (relaçao VVI / AV = 1,3:1). Na populaçao adulta jovem de 21 a 40 anos, o número de implantes atrioventriculares foi maior que o de ventriculares, com relaçao AV / VVI = 1,7:1. Da mesma forma, na faixa etária dos 41 aos 60 anos, implantaram-se mais marcapassos de dupla-câmara (relaçao AV / VVI = 1,3:1). No caso da populaçao sexagenária e septagenária, foram utilizados mais marcapassos ventriculares, com relaçao VVI / AV = 1,4:1. Para os octa e nonagenários, o modo ventricular foi o mais escolhido (relaçao VVI / AV = 3,2:1).

Estes dados estao em concordância com as conclusoes apresentadas por Johangir e cols. (1999) que, estudando retrospectivamente 432 pacientes octagenários e nonagenários, demonstraram que a escolha do modo de estimulaçao, ventricular ou atrioventricular, nao interferiu na mortalidade desse grupo de pacientes8. Segundo esses autores, a sobrevida foi modificada por doenças associadas, pela classe funcional para ICC, pela funçao ventricular e pela idade do paciente no momento do implante8.

Classe Funcional

A classe funcional influenciou a escolha do modo de estimulaçao fazendo com que pacientes sem ICC recebessem marcapassos fisiológicos numa proporçao maior que os pacientes com sintomas (classes II, III e IV). Na classe funcional I a relaçao AV / VVI foi de 1,4:1; na classe II foi 0,8:1; na classe III foi de 0,7:1 e na classe IV, 0,5:1.

Esta tendência de utilizar marcapassos ventriculares nos pacientes com maior grau de ICC está em consonância com os estudos hemodinâmicos realizados em pacientes chagásicos portadores de bloqueios avançados da conduçao atrioventricular, nos quais foi demonstrada piora ou ausência de melhora hemodinâmica, em pacientes com disfunçao ventricular, quando da mudança da estimulaçao ventricular para atrioventricular, principalmente durante o exercício11.

Linde-Edlstam e cols. (1992), entretanto, em estudo prospectivo com 148 pacientes portadores de bloqueios atrioventriculares, randomizados para os modos VVI e VDD, demonstraram que a sobrevida dos pacientes é semelhante à da populaçao geral quando nao há sinais de insuficiência cardíaca previamente ao implante e que a mortalidade é influenciada pelo modo de estimulaçao apenas quando existe insuficiência cardíaca prévia9.

Distúrbio do Sistema Excito-Condutor

O distúrbio do tecido de conduçao influenciou consideravelmente a escolha do modo de estimulaçao. Pacientes portadores de doença do nó sinusal receberam aproximadamente duas vezes mais marcapassos fisiológicos que ventriculares (relaçao AV / VVI = 2,1:1).

Essa conduta corrobora os dados da literatura. Na doença do nó sinusal, diversos estudos retrospectivos têm sugerido maior sobrevida e menor incidência de fibrilaçao atrial e de ICC nos portadores de marcapassos atriais e atrioventriculares. Esses estudos, entretanto, apresentam "vieses" nos critérios de seleçao do modo de estimulaçao, sendo que o principal deles é que os pacientes portadores de marcapassos ventriculares sao habitualmente mais idosos e muitas vezes já portadores de fibrilçao atrial ou doenças incuráveis no momento do implante do marcapasso7,10. Andersen e cols., (1997), em um trabalho prospectivo e randomizado com 225 pacientes portadores de doença do nó sinusal, demonstraram que após cinco anos de seguimento, o implante de marcapasso atrial resultou em menor mortalidade total e cardiovascular, e menor incidência de fibrilaçao atrial, de fenômenos trombo-embólicos e de ICC comparando-se com os ventriculares5.

Embora os pacientes portadores de bloqueio atrioventriculares tenham recebido implantes ventriculares em maior número, é possível verificar que a indicaçao de marcapassos bicamerais foi maior nos portadores de bloqueios do 2º grau (relaçao VVI / AV = 1,2:1) do que nos portadores de bloqueios totais (relaçao VVI / AV = 1,8:1).

É possível verificar que a grande maioria dos pacientes portadores de flutter ou fibrilaçao atrial recebeu marcapassos ventriculares (relaçao VVI / AV = 10:1). Setenta e um pacientes, entretanto, receberam implantes atrioventriculares, provavelmente com o objetivo de prevençao da fibrilaçao atrial crônica.

Outros Fatores Analisados

Os sintomas pré-operatórios, a etiologia do distúrbio da conduçao e o sexo do paciente foram os outros aspectos estudados. Nao foram encontradas evidências de que esses parâmetros possam ter influído na escolha do modo de estimulaçao.


CONCLUSOES

A análise dos dados obtidos pelo Registro Brasileiro de Marcapassos tem sido de grande utilidade para a observaçao da tendência dos profissionais brasileiros no tratamento dos pacientes portadores de bradiarritmias12-26. O comportamento adotado na escolha do modo de estimulaçao pode ser observado com clareza nos dados obtidos em 1999.

Verifica-se que, a despeito das influências regionais, manifestadas pela especializaçao dos hospitais e mesmo dos médicos que realizam os procedimentos, normas rígidas, baseadas em evidências da literatura, têm sido aplicadas na escolha do modo de estimulaçao para os pacientes.

Modos de estimulaçao de dupla-câmara têm sido utilizados nos pacientes mais jovens, nos portadores de doença do nó sinusal e com menor grau de lesao do sistema His-Purkinje, em que o risco de síndrome do marcapasso é maior. Pacientes idosos, portadores de insuficiência cardíaca avançada e enfermos com bloqueio atrioventricular total receberam maior número de indicaçoes para marcapassos ventriculares.


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21 Costa R, Leao MIP. Experiência Brasileira com o uso de Marcapasso Cardíaco Artificial: Resultados Atuais Obtidos pelo Registro Brasileiro de Marcapassos - RBM. Rev Bras Cir Cardiovascular 1995; 10(2):84-9.

22 Leao MIP, Costa R. Brazilian Pacemaker Registry. Eur J Cardiac Pacing Electrophysiol 1996; 6 (1-supp.5):169.

23 Leao MIP, Costa R, Pachón MJC, et al. Registro Brasileiro de Marcapassos no ano de 1995: Análise do Perfil de Pacientes Chagásicos e Nao Chagásicos. Reblampa 1996; 9(2):75-82.

24 Costa R. Influência do Grau Funcional para Insuficiência Cardíaca Congestiva nas Indicaçoes de Implante de Marcapasso Cardíaco Permanente - Apresentaçao dos Dados do Registro Brasileiro de Marcapassos Referentes ao Ano de 1996. Reblampa 1998; 11(3):127-34.

25 Costa R. Análise das características clínicas dos pacientes submetidos a implante inicial e a reoperaçoes. Apresentaçao dos dados do Registro Brasileiro de Marcapassos (RBM) referente ao Ano de 1997: Reblampa 1999; 12(3):121-7.

26 Costa R. Escolha do modo de estimulaçao no Brasil. Análise das características dos pacientes submetidos a implantes ventriculares e atrioventriculares a partir dos dados do Registro Brasileiro de Marcapassos (RBM) no ano de 1998: Reblampa 2000; 13(1):49-57.










Trabalho realizado a partir dos dados do Registro Brasileiro de Marcapassos (RBM) do Ministério da Saúde e o Departamento de Estimulaçao Cardíaca Artificial da SBCCV.

I. Coordenador do Registro Brasileiro de Marcapassos (RBM).
II. Presidente do Departamento de Estimulaçao Cardíaca Artificial da SBCCV (Deca).
III. Membro da Diretoria do Departamento de Estimulaçao Cardíaca Artificial da SBCCV (Deca).
IV. Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV).
V. Representante do Ministério da Saúde.

Endereço para correspondência:
Rua Beira Rio, 45 - cj. 73
Sao Paulo - SP. Brasil - CEP: 04548-050
E-mail: marcapasso@osite.com.br

Trabalho recebido em 12/2000 e publicado em 12/2000.

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