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Artigo Original

Registro Brasileiro de Marcapassos no Ano 2000

Brazilian Pacemaker Registry: 2000 Database

Roberto COSTAI, Luiz Antonio Castilho TENOII, Antonio Amauri GROPPOIII, Vicente ÁVILA NETOIII, Alberto BELTRAMEIV, Carla Pintas MARQUESIV, Paulo Roberto Slud BROFMANV

INTRODUÇÃO

A rapidez da difusão dos conhecimentos, proporcionada pelos meios de comunicação, associada à padronização de condutas, estabelecida pelos diversos Consensos de Especialistas, tem modificado o panorama da abordagem terapêutica às doenças.

Torna-se fundamental a análise continuada das condutas adotadas pela comunidade médica e nesse sentido os registros de procedimentos têm representado papel de extrema utilidade na validação de condutas.

O objetivo do presente relato é apresentar os dados obtidos pelo Registro Brasileiro de Marcapassos no ano de 2000.


MÉTODO

Coleta e Processamento das Informações


O Registro Brasileiro de Marcapassos é adaptado à realidade brasileira, e é compatível com o "European Pacemaker Registration Card". Uma portaria do Ministério da Saúde (Vigilância Sanitária) regulamenta que todo o gerador de pulsos comercializado do Brasil deve conter esse formulário. Um único documento, em quatro vias, substitui a "ficha de implante" dos diversos fornecedores, padronizando-a em todo o território nacional. Uma das vias fica arquivada no prontuário do paciente, a segunda fica com a empresa fornecedora do marcapasso, uma terceira vai para o órgão pagador (Sistema Único de Saúde (SUS) ou empresas seguradoras) e uma via é remetida ao RBM, responsável pelo processamento dos dados.

As informações são organizadas no formulário, constando de: 1) dados pessoais do paciente; 2) dados clínicos; 3) dados cirúrgicos e 4) dados sobre o sistema de estimulação implantado e/ou removido além de 5) fechamento do arquivo. Os dados repetitivos como Cadastro de Médicos, de Hospitais, de Empresas Seguradoras e de Produtos (geradores e eletrodos) compõem os arquivos de suporte para o cadastramento e contêm informações completas sobre os diferentes setores que compõem o RBM.

O Registro Brasileiro de Marcapassos utiliza software gerenciador do banco de dados que já foi apresentado anteriormente, e foi modificado e redesenhado recentemente em Visual Basic 5.0, integralmente em ambiente Windows, sendo dedicado à manipulação de dados médicos (textuais), organizados na forma de tabelas de múltipla escolha1-2. Tem como característica principal a facilidade de inserção de dados e a versatilidade para levantamento de dados, cujos índices são criados no momento da pesquisa. Este sistema permite a pesquisa de qualquer dado, a partir do grupo total ou de qualquer outro índice (subgrupo) já criado, atendendo às diversas necessidades de levantamento dos dados. Possui um módulo editor de relatórios, que é utilizado para relatórios padronizados como os que são enviados para o Ministério da Saúde, para os hospitais ou para os médicos participantes do sistema.

Os formulários são recebidos pelo RBM por via postal. As planilhas são examinadas, classificadas e levadas à digitação. Aquelas que apresentam pequenos erros ou falhas de preenchimento são separadas, e é feito um contato por telefone ou por correio para que sejam corrigidas. O tempo médio de recebimento dos formulários é de 30 a 60 dias após o procedimento.

O RBM conta com uma funcionária responsável pela revisão, classificação e digitação dos formulários. Os recursos provêm da taxa cobrada pelo RBM aos distribuidores, e têm garantido a operacionalidade do sistema.

Análise dos Resultados

Após o cadastramento das informações, os dados referentes ao ano de 2000 foram separados e analisados: 1_quanto ao sexo e à idade dos pacientes; 2_quanto às características clínicas e 3_quanto ao tipo de marcapasso implantado. Os dados referentes aos médicos e hospitais que realizaram o implante também foram analisados.

Os dados pessoais e clínicos foram agrupados segundo o tipo de marcapasso utilizado (ventricular ou atrioventricular) e apresentados em tabelas e gráficos. Os dados referentes aos implantes atriais puros foram retirados dessa análise, devido ao seu pequeno número (100 pacientes representando 0,8% das operações).

Os gráficos apresentam histogramas de freqüência dos números absolutos para todos os parâmetros analisados. No caso específico das variáveis clínicas, os gráficos de barras horizontais apresentam, também, valores percentuais.

O nível de especialização de médicos e de hospitais que realizaram procedimentos é analisado pelo agrupamento dos profissionais e instituições em quatro categorias: a) os que realizam menos que 10 operações de marcapasso por ano; b) entre 11 e 50; c) de 51 a 100; e d) acima de 100 procedimentos ao ano. Estes dados são apresentados em histogramas de freqüência.


RESULTADOS

Segundo as informações, enviadas por 256 hospitais e preenchidos por 445 médicos diferentes, no período de 01/01/2000 a 31/12/2000, foram realizados 13466 procedimentos cirúrgicos relacionados à estimulação cardíaca artificial. Desses, 9519 (70,7%) foram implantes iniciais.

A distribuição dos pacientes por região brasileira, levando-se em consideração a localização do hospital, mostrou que na região Centro-Oeste foram realizadas 794 (5,9%) operações; na região Nordeste, 1836 (13,6%); na Norte, 93 (0,7%); na Sudeste, 7755 (57,6%) e na Sul, 2940 (21,8%) (Figura 1).


Figura 1 - Modos de estimulação utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a região brasileira onde o procedimento foi realizado.



Verificou-se que em 107 hospitais (41,8%) foram realizadas menos de 10 operações; em 75 hospitais (29,3%), 11 a 50 procedimentos; em 27 (10,6%) entre 51 e 100 operações; e que em 47 hospitais (18,4%) foram realizados mais de 100 procedimentos no ano de 2000 (Figura 2).


Figura 2 - Distribuição dos Hospitais que realizaram os implantes, agrupados por número de procedimentos realizados no ano de 2000.



Da mesma forma, observa-se que 228 médicos (51,2%) realizaram menos de 10 operações; 138 profissionais (31,0%) realizaram de 11 a 50 procedimentos; 45 (10,1%) realizaram entre 51 e 100 operações; e que 34 (7.6%) especialistas realizaram mais que 100 procedimentos em 2000 (Figura 3).


Figura 3 - Distribuição dos médicos que realizaram os implantes, agrupados por número de procedimentos realizados no ano de 2000.



Sistemas de câmara única atriais foram implantados em 101 (0,8%) pacientes, e ventriculares em 7776 (57,8%). Marcapassos de dupla-câmara foram utilizados em 5583 pacientes (41,5%) (Figura 4).


Figura 4 - Tipo de marcapasso utilizado.



O sexo masculino foi referido em 6673 (49,6%) pacientes e o feminino, em 6603 (49,0%) (Figura 5). Em 200 formulários esse campo de cadastramento não foi preenchido.


Figura 5 - Modos de estimulação utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo o sexo dos pacientes.



A análise da idade dos pacientes mostrou que 249 (1,9%) apresentavam de 1 a 20 anos; 689 (5,1%), de 21 a 40 anos, 2638 (19,6%), de 41 a 60 anos; 6582 (48,9%), de 61 a 80 anos; e 2487 (18,5%) estavam acima de 81 anos de idade (Figura 6).


Figura 6 - Modos de estimulação utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a faixa etária dos pacientes.



A indicação clínica para o implante de marcapasso foi justificada por síncopes, pré-síncopes ou tonturas em 9117 casos (67,7%); pelo achado de bradicardia em 984 (7,3%); por insuficiência cardíaca congestiva em 927 (6,8%); por taquicardia em 259 (1,9%), sendo relatados outros sintomas e sinais em 782 (5,8%) enfermos (Figuras 7a e 7b).


Figuras 7a e 7b - Modos de estimulação utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a indicação clínica para o implante de marcapasso.



A classificação funcional para insuficiência cardíaca congestiva (N.Y.H.A.) mostrou que 1382 pacientes (10,3%) eram assintomáticos, 1736 (12,9%) apresentavam sintomas aos grandes esforços, 5204 (38,7%) eram portadores de sintomas aos pequenos e médios esforços e 3598 (26,7%) apresentavam sintomas em repouso (Figuras 8a e 8b).


Figuras 8a e 8b - Modos de estimulação utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a classificação funcional dos pacientes para Insuficiência Cardíaca Congestiva.



Os distúrbios do ritmo cardíaco que justificaram o implante de marcapasso foram: o bloqueio atrioventricular do segundo grau em 1402 pacientes (10,4%); o bloqueio atrioventricular total em 6909 (51,3%); os bloqueios fasciculares em 297 (2,2%); as várias formas da doença do nó sinusal em 1899 (14,1%); o flütter ou fibrilação atrial com baixa resposta ventricular em 1180 (8,8%) e outros achados em 386 pacientes (2,9%) (Figuras 9a e 9b).


Figuras 9 a e 9b - Modos de estimulação utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo o achado eletrocardiográfico dos pacientes.



A etiologia atribuída ao distúrbio da condução apresentada pelos pacientes foi a congênita em 216 casos (1,6%); desconhecida em 3254 (24,2%); doença de Chagas em 2958 (22,0%); fibrose do sistema de condução em 3612 (26,8%); intervenções médicas em 377 (2,8%) e outras causas em 1456 (10,8%) (Figura 10).


Figura 10 - Modos de estimulação utilizados nos implantes iniciais, agrupados segundo a etiologia do distúrbio da condução dos pacientes.



DISCUSSÃO

Pela análise dos dados publicados no presente estudo e sua comparação com os anteriormente apresentados, é possível verificar três tendências principais: 1) o crescimento do número de procedimentos realizados anualmente; 2) o crescimento do número de médicos e hospitais participantes do RBM; 3) o crescimento progressivo do percentual de marcapassos atrioventriculares implantados e 4) a manutenção dos critérios de indicação de estimulação cardíaca artificial.

O número de operações realizadas apresentou crescimento de 45,6%, quando comparados os números de 1995 com os de 2000. O acompanhamento ano a ano mostrou que em 1995 foram realizadas 9251 operações; em 1996, 9669; em 1997, 10781; em 1998, 10462; em 1999, 11048 e em 2000, foram reportados 13466 procedimentos3-7.

O número de hospitais participantes cresceu 74,2% entre os anos de 1995 e de 2000. Os números mostram que em 1995 apenas 147 hospitais enviavam informações ao RBM; em 1996, 249; em 1997, 170; em 1998, 184; em 1999, 216; e em 2000, 256 participam do RBM3-7.

O número de médicos participantes do Registro cresceu 31,3% entre os anos de 1995 e 2000. Em 1995, 339 enviaram informações; em 1996, 692; em 1997, 347; em 1998, 365; em 1999, 392; e em 2000, 445 realizaram procedimentos3-7.

O percentual de uso do marcapassos atrioventriculares também vem apresentando crescimento constante. Em 1995, apenas 16,1% dos marcapassos implantados eram atrioventriculares; em 1996, passaram a ser 23,5%; em 1998, representavam 34,3%; em 1999, 38,6%; e em 2000, 41,5% dos sistemas implantados eram de dupla-câmara3-7.

A comparação dos dados publicados anteriormente com os atuais não mostra alterações importantes nos demais itens avaliados. Não foram detectadas alterações na distribuição do sexo e da idade dos pacientes, assim como na indicação clínica, na classe funcional, nos achados eletrocardiográficos e na etiologia do distúrbio da condução.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 Costa R, Leão MIP. Registro Brasileiro de Marcapassos. Rev. Bras. Marcapasso e Arritmia 1993; 6(1):31-4.

2 Costa R, Leão MIP. Implantação do Registro Brasileiro de Marcapassos. Rev. Bras. Marcapasso e Arritmia, 1994; 7(1):2-3.

3 Leão MIP, Costa R, Pachón MJC, et al. Registro Brasileiro de Marcapassos no ano de 1995: Análise do Perfil de Pacientes Chagásicos e Não-Chagásicos. Reblampa 1996; 9(2):75-82.

4 Costa R. Influência do Grau Funcional para Insuficiência Cardíaca Congestiva nas Indicações de Implante de Marcapasso Cardíaco Permanente - Apresentação dos Dados do Registro Brasileiro de Marcapassos Referentes ao ano de 1996. Reblampa 1998; 11(3):127-34.

5 Costa R. Análise das características clínicas dos pacientes submetidos a implante inicial e a reoperações. Apresentação dos dados do Registro Brasileiro de Marcapassos (RBM) referente ao ano de 1997: Reblampa 1999; 12(3):121-7.

6 Costa R. Escolha do modo de estimulação no Brasil. Análise das características dos pacientes submetidos a implantes ventriculares e atrioventriculares a partir dos dados do Registro Brasileiro de Marcapassos (RBM) no ano de 1998: Reblampa 2000; 13(1):49-57.

7 Costa R, Teno LAC, Groppo AA, Ávila Neto V, Beltrame A, Marques CP, Brofman PRS. Registro Brasileiro de Marcapassos: Escolha do Modo de Estimulação no ano de 1999. Rev Bras Cir Cardiovasc 2000; 15(3):263-70.









Trabalho realizado a partir dos dados do Registro Brasileiro de Marcapassos (RBM) do Ministério da Saúde e o Departamento de Estimulação Cardíaca Artificial (Deca) da SBCCV.

I. Coordenador do Registro Brasileiro de Marcapassos - RBM.
II. Presidente do Departamento de Estimulação Cardíaca Artificial da SBCCV (Deca)
III. Membro da Diretoria do Departamento de Estimulação Cardíaca Artificial da SBCCV (Deca)
IV. Representante do Ministério da Saúde
V. Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV)

Endereço para correspondência:
Rua Beira Rio, 45 - cj. 73
São Paulo - SP. Brasil - CEP: 04548-050
Email: marcapasso@osite.com.br

Trabalho recebido em 09/2001 e publicado em 09/2001.

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