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Acesso aberto Revisado por pares
Relato de Caso

Estudo Eletrofisiológico Transesofágico

Estudo Eletrofisiológico Transesofágico

José Carlos PACHÓN MATEOS

MCS, 14 anos de idade, do sexo masculino, com queixas de palpitações persistentes há vários dias. Apresenta história de taquicardia desde os 6 anos de idade, com crises de início e término súbitos, que se tornaram progressivamente mais freqüentes e rebeldes. Apresentou, inicialmente, boa resposta aos beta-bloqueadores, à quinidina, à amiodarona, e à propafenona. No entanto, gradativamente, todas essas medicações tornaram-se ineficazes.

Exame físico: hiper-desenvolvimento físico, obesidade infantil, sem insuficiência cardíaca, PA = 95/60 mmHg, pulmões limpos, abdômen globoso, de difícil palpação (obesidade e resistência reativa da parede abdominal). Pulsos palpáveis e sincrônicos. Ritmo cardíaco regular, presença de taquicardia com freqüência de 176 ppm, persistente. Sem sopros.


Figura 1



Ecocardiograma sem anormalidades, além da taquicardia.

Traçados: Os traçados não são simultâneos. Traçado superior: derivação V2, N, 25 mm/s, em repouso. Traçado central: derivação esofágica, realizada pelo eletrodo precordial de V2, 2N, 50 mm/s. Traçado inferior. Derivação precordial V2, N, 25 mml s, com aplicação de 2 estímulos por estimulação transesofágica.


COMENTÁRIOS

O traçado superior, em repouso, mostra a presença de uma taquicardia regular, com QRS estreito, 176 ppm, sustentada, caracterizando uma taquicardia supraventricular. A onda P é mal visualizada, parecendo estar no segmento ST. A derivação esofágica - traçado central - mostra claramente uma relação R/P 1 :1, com R-P (140 ms) < P-R (200 ms). No traçado inferior, a estimulação esofágica captura as câmaras atriais com precocidade suficiente para reverter a taquicardia. Logo a seguir surgem dois batimentos sinusais normais, conduzidos. No segundo batimento, surge uma onda P retrógrada no segmento ST (seta), reiniciando-se espontaneamente a taquicardia. Esse comportamento caracteriza a forma "incessante" da taquicardia por reentrada A V. Esta arritmia comumente se deve à presença de feixes anômalos de condução unidirecional lenta, localizados no septo posterior. Neste caso, era devida a feixe anômalo oculto, tipo Kent, localizado na região ântero-septal, muito próximo ao feixe de His. As características do feixe eram do tipo rápido, oculto, entretanto, modificações eletrofisiológicas no feixe e no sistema de condução normal, provavelmente induzidas pelo crescimento rápido e acentuado do paciente, ao lado de efeito prolongado de medicação antiarrítmica, podem justificar a manifestação incomum da taquicardia para este tipo de feixe, mudando o seu comportamento, da forma paroxística para a forma incessante. Um eventual efeito pró-arrítmico foi afastado pelo fato do paciente, normal sob o ponto de vista de função hépato-renal, estar há dez dias sem o uso da propafenona e de nenhum outro antiarrítmico. O paciente foi submetido a ablação por radiofreqüência sob controle escalonado de temperatura, tendo-se obtido eliminação total do feixe anômalo sem nenhuma lesão do feixe de His e nó AV. O controle 4 meses após, através de uma nova estimulação transesofágica demonstrou ausência total da arritmia com normalidade das conduções AV e IV. Este exemplo demonstra a grande utilidade da cardioestimulação transesofágica, no cenário terapêutico atual das taquicardias supraventriculares, facilitando o diagnóstico e a orientação do tratamento na fase pré-ablação e, permitindo, de uma forma bastante prática, o estudo eletrofisiológico de controle, na fase pós-ablação, feito a nível ambulatorial.










Chefe da Seção de Marcapasso do Serviço de Estimulação Cardíaca Artificial do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Responsável pelo Serviço de Arritmias do Hospital do Coração - São Paulo.

Endereço para correspondência:
Av. Dante Pazzanese, 500 - Ibirapuera
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Fone: (011) 549-1144.

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