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Editorial

O coração, centro das faculdades espirituais e da moral

O coração, centro das faculdades espirituais e da moral

Oswaldo Tadeu Greco

Na Antiguidade, uma particularidade dos povos semitas era a tendência a localizar no coração a dimensão espiritual do homem. Entre os gregos antigos, observa-se a mesma perspectiva cardiocêntrica, presente nos textos de Homero, Hesíodo e Ésquilo, que remetem a um universo de significados e ações que têm como foco a pessoa na sua integridade.

A partir do século VI A.C., simultaneamente ao aparecimento e à difusão do pensamento filosófico grego, o termo helênico kardia começou a ser substituído pelos termos latinos mens e anima e o coração passou a ser visto não apenas como sede dos sentimentos e das paixões, mas da inteligência, dos pensamentos e, ainda, local da inspiração divina, do encontro com os deuses.

Platão parece ter sido o primeiro a destituir o coração humano de sua hegemonia. Para ele, o reino das idéias estava localizado na cabeça, extremidade do corpo mais próxima do mundo celeste. Aristóteles, por sua vez, advogava uma separação nítida entre razão e sentimento, considerando o cérebro como o local em que se experimentava a ação de pensar e associando o coração à alma sensitiva ou emocional. O pensamento aristotélico representou um divisor de águas na história das concepções sobre o coração humano.

Aristóteles considerava o coração o órgão principal no corpo humano, julgando que a partir dele que todos os outros se desenvolviam, ligados pelos vasos sanguíneos às diversas sensações que acabam por confluir para o coração, o grande coordenador das impressões do ser humano sobre o mundo.

Durante toda a Idade Média até o alvorecer da Modernidade, a figura de Galeno destacou-se no terreno médico. Fazendo eco à tradição hipocrática e platônica, defendia que o pensamento estava localizado no cérebro. Distinguia-o, entretanto, das faculdades da alma, enumerando diversas razões para a proeminência do coração como órgão fundamental e identificado com a pessoa humana.

No século XVI, é o coração, e não o cérebro, que aparece caracterizado nas imagens de filósofos e médicos como o centro não apenas da vida física e emocional, mas também da intelectual e moral. Do ponto de vista prático, portanto, o período medieval e o Renascimento permaneceram essencialmente cardiocêntricos.

Mesmo durante a Revolução Científica do princípio do século XVII, momento em que se esboçava o método científico moderno, com a contribuição fundamental de Willian Harvey, o cardiocentrismo esteve bem representado e defendido.

Este breve resumo, em que se entrelaçam inúmeros fatos históricos, ilustra a valorização do coração por inúmeros estudiosos ao longo dos séculos. A intenção é encerrar mais um ano de nossa história científica, com o fechamento da edição 21 da Reblampa. Este número demarca mais uma gestão vitoriosa do Deca, encabeçada pelo Dr. Álvaro Barros Costa, que culminou neste semestre com a realização do Prone 2 em cinco locais diferentes no Brasil, em mais uma jornada de difusão sobre as condições que redundam em morte súbita e insuficiência cardíaca.

Um desses encontros foi coordenado por mim em São José do Rio Preto, nos dias 17 e 18 de outubro de 2008. Tenho convicção plena que a meta da difusão científica foi alcançada com êxito, com a presença de palestrantes de alto nível. Um dos pontos de destaque foi a homenagem feito pelo Deca ao Prof. Dr. Paulo Roberto Slud Brofman, pelos relevantes serviços prestados à área de estimulação cardíaca e por ter sido um de seus primeiros presidentes. Algumas fotos deste evento poderão ser vistas ao final deste Editorial.

O ano de 2008 encerra-se com mais um evento científico, que representa o clímax das atividades do Departamento de Arritmia Cardíaca, Estimulação Cardíaca e Eletrofisiologia. Trata-se do 25º Congresso Brasileiro de Arritmias Cardíacas, a ser realizado no período de 3 e 6 de dezembro, em Salvador, Bahia.

Muitos trabalhos de qualidade serão divulgados nesse evento que certamente servirá para difundir o conhecimento e facilitar o tratamento de pacientes graves, em uma subespecialidade complexa da Cardiologia. Merece destaque a investigação realizada pelo grupo do Prof. Dr. Martino Martinelli Filho, do Incor de São Paulo, sobre o uso de CDIs em miocardiopatias, principalmente as de origem chagásica. O material, inédito na literatura, envolve não apenas um grande número de pacientes, mas apresenta um tratamento estatístico rigoroso e certamente servirá de base para a indicação mais precisa desses dispositivos na Doença de Chagas.

Agradeço o apoio dado à Relampa pela atual diretoria do Deca, que encerra sua gestão neste momento. Aproveito para cumprimentar o grupo pelo esforço na manutenção do Departamento e na divulgação da área da Estimulação Cardíaca. Cumprimento a diretoria que assumirá a coordenação departamental em janeiro de 2009, liderada pelo Dr. Vicente Avila Neto, certo de que, nos próximos dois anos, seus esforços em prol dos anseios da especialidade resultarão na preservação dos direitos já alcançados e em novas conquistas.

À comunidade de estimulistas meu sincero agradecimento ao apoio e estímulo recebidos e espero que o 25º Congresso Bra­sileiro de Arritmias Cardíacas seja mais uma oportunidade de aprimoramento e estreitamento de laços profissionais e pessoais. Despeço-me desejando a todos um Feliz Natal, na companhia de seus familiares, e um ano de 2009 cheio de saúde e realizações.

Um forte abraço!


Oswaldo Tadeu Greco
Editor da Relampa

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